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RITOS E SEUS SENTIDOS



As passagens de ano são intensamente marcadas por celebrações em famílias, trocas de presentes, muita comilança, muita bebida, muita euforia. Totens e templos do consumo atingem seu apogeu nestes momentos. São gestos e ações que formam um conjunto ritualístico que procuram liberar toda a soma de estresses do ano inteiro. As felicidades reais se tornam difusas diante das satisfações fugazes. Até aquele momento em que a onda do ano termina.

Quando a onda do novo ciclo começa, por algum motivo ancestral, o cidadão se lança em busca da natureza: uma praia, uma montanha, um sítio, um rio ou cachoeira. Novamente uma mistura de sentidos dá forma, agora, aos rituais de férias. A necessidade de integração da alma com a natureza muitas vezes acaba ficando obscurecida pelo transe consumista de lugares badalados e atividades fúteis.

Os ritos fazem parte da humanidade como um sistema de educação do comportamento. Eles podem revelar padrões elevados de consciência ou limitações e manutenção de crenças limitadoras para o ser humano; o que vai definir entre um ponto e outro é justamente a reflexão sobre o sentido do ato e seu objetivo social.

Para Confúcio, o mestre da milenar filosofia chinesa, os rituais podem ser um caminho para nos tornarmos mais humanos, pois ajudam a harmonizar nossas relações e desenvolvem a qualidade da reciprocidade, sendo inevitáveis para a construção de uma sociedade equânime. Tanto as qualidades resultantes das conexões com a coletividade humana quanto com os ecossistemas, desempenham este papel de humanização ou bestialização do ser.

Por isso é necessário separar o joio do trigo e retomar o sentido sagrado dos ritos.

Quando participamos de uma celebração, momento social, ou evento que faz sentido para a alma, há um processo interior de acolhimento de algo que envolve também vitalização da qualidade da energia que está sendo movimentada.

Neste momento, por exemplo, caminho na praia e vejo um grupo de pessoas apinhado latas e latas de cerveja em frente ao mar, mais sintonizados com o líquido alcoólico e fofocas do que com as águas do oceano. Um estranho rito de desconexão, para minha percepção.

Mais adiante vejo um surfista em suas etapas de: conectar com a água, aguardar o melhor momento, até pegar uma onda e se integrar no movimento que ela projeta; existe ali uma cerimônia de conexão e integração. Um claro e profundo rito de aprendizado e reciprocidade.

A nossa vida é povoada de ritos, este é um bom momento para meditar sobre aqueles que realmente valem a pena manter.





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