A VIDA DEVE SER CELEBRADA


Estamos atravessando tempos difíceis para nós todos dentro deste imenso coletivo chamado humanidade. Talvez se olharmos para a nossa vida pessoal, pode não ser. Sim, é que às vezes acontece de o mundo estar desabando enquanto nosso momento individual estar fluindo e até mesmo a saúde e a prosperidade se apresentarem em fluxo harmônico.

A vida, em suas extensões: individual, social e coletiva; é como uma caixinha dentro de outra maior e assim sucessivamente. Se apresenta como um caleidoscópio de situações, possibilidades e coisas que por vezes nos dispersa em uma espécie de oceano de impressões conduzindo nossos destinos.

Isso pode fazer com que o valor da existência seja subtraído pela superfície dos fatos. A vida às vezes escapa dentro da própria vida. Por isso acredito que em épocas imemoriais os nossos primeiros antepassados criaram os ritos. Quando perceberam a passagem do tempo, seu ritmo, seu fulgor e seu descanso, os ciclos de expansão e retração, os dias e as noites nuas ou nubladas. Quando sentiram que as estações respiravam dentro e fora dos corpos, decidiram que era preciso dar atenção a este mistério por trás dos eventos cotidianos.

O rito permite canalizar o tempo para dar atenção ao que é essencial. Sabemos bem, como nos disse certa vez Saint Exupery através do “pequeno príncipe” - o essencial é invisível aos olhos - e tocar no sentido maior de determinados eventos.

Celebrar os momentos marcantes honrando o mistério que os vivifica renova nossa própria existência, pois a preenche de sentido. Isso podemos perceber por dentro da alegria de um nascimento, aniversário, mudança de época, fim de ciclo, início de era.

Através do rito e da celebração honra-se a vida que nos atravessa, verdadeira e mais ampla, mais potente de significados. A celebração nos permite vitalizar o que é essencial em cada planície dos eventos que se sucedem, indo além da efeméride.

Estamos em tempos de transição, entre o fim e o início de algo. O tempo se confunde entre súbitas acelerações e frequentes pausas. A vontade coletiva é de reunir-se em grupos, contar histórias e permitir-se entoar cantos, conectar com mares, montanhas, trilhas e florestas. Parar o mundo por um tempo determinado e descansar. Renovar forças para cumprir novas etapas. Sendo assim, cabe refletir: que luz podemos gerar nessa travessia?